(Artigo publicado em 30/07/2024, no Correio de Sergipe. Tema: O fenômeno das compras coletivas e seus reflexos no mercado de consumo atual.)


O ano era 2010, e as compras coletivas surgiram como um verdadeiro fenômeno, rapidamente se popularizando através de plataformas digitais que ofereciam ao consumidor a possibilidade de adquirir serviços e produtos com descontos consideráveis, sejam em jantares, lavagens de veículos ou mesmo pacotes de viagens. O conceito não guardava complexidade, pois basicamente consistia em reunir uma grande quantidade de compradores interessados num determinado bem ou serviço, possibilitando às empresas intermediadoras negociarem com os fornecedores valores menores. Aparentemente, todos sairiam ganhando, mas, nesse caso, valeu a máxima de que as aparências enganam, e o boom inicial foi sendo substituído pela calmaria, que praticamente extinguiu a modalidade anos depois, mas não sem deixar um legado.
Logo que surgiram, essas vendas estimularam o consumo de maneira surpreendente, como uma verdadeira febre. Ninguém queria deixar escapar as oportunidades, mesmo que, a princípio, o produto ou serviço não estivesse nem próximo da lista de possíveis aquisições. O importante era aproveitar o preço baixo e experimentar, o que acabou estimulando mais e mais fornecedores a aderirem à ideia, acreditando que as campanhas tornariam as lojas e estabelecimentos mais conhecidos, trazendo novos clientes e automaticamente aumentando as vendas. Mas, obviamente, isso tinha um preço, já que as altas demandas provocadas pelas ofertas acabaram por surpreender uma grande parte dos fornecedores, não preparados para tanto, o que resultava em consumidores insatisfeitos. A frustração do consumidor implicava diretamente na redução da já diminuída margem de lucro, fato que tornara a sustentabilidade do negócio questionável.
Além disso, houve saturação do mercado, na medida em que a infinitude de ofertas disponíveis gerou um ponto crítico, onde os consumidores passaram a questionar se o desconto oferecido era real, ou se tratava de uma maquiagem de valores, a exemplo do que ainda hoje, infelizmente, ocorre em campanhas promocionais, como a black friday. Diante disso, as compras coletivas, enquanto modelo de vendas, começaram a enfraquecer e as plataformas, ou mudaram de estratégia ou fecharam as portas. Contudo, ficou o legado significativo, que até hoje influencia o comportamento do consumidor e, por sua vez, as estratégias de marketing aplicadas, como se vê quando do oferecimento dos cupons de desconto seja pelos próprios fornecedores seja pelas plataformas de marketplace, ou ainda pelas estratégias de economia compartilhada, como nos casos do transporte por aplicativo e das plataformas de hospedagem, cujas raízes se vinculam ao uso coletivo e otimização de recursos, com vistas a alcançar preços e valores mais competitivos.
E o consumidor, o que ganhou com isso? De um lado, decerto que passou a exigir a disponibilização da máxima quantidade de informação possível, já prevista em lei e, a partir do momento que restou claro aos fornecedores que é necessário aliar preço à qualidade, com clareza de informações e transparência e credibilidade nas ofertas, certamente houve um saldo positivo. O comércio eletrônico é sucesso hoje, por ter evoluído também através das compras coletivas. Acrescente-se a necessidade constante de inovação tecnológica, ainda mais evidente com os atuais recursos de inteligência artificial. Aquela moda passageira, ajudou a tornar o consumidor moderno mais exigente e consciente de seus direitos, que aprendeu a exercer o arrependimento, questionar a veracidade das ofertas dando importância à qualidade, bem como, à reputação dos fornecedores, considerando que a interatividade com os outros consumidores através das redes, facilitou esse tipo de comunicação e divulgação, gerando, por fim, uma maior consciência de consumo e dos direitos de forma geral.
*é advogado, especialista pós-graduado em Direito do Consumidor. contato@viniciusemanuel.com.br